quarta-feira, 8 de junho de 2011



                                                        A casa

O sol golpeia sua face encolhida de solidão.
Expulsando o sono faminto, ela se levanta recolhendo o lençol - enquanto dormimos, ele trabalha - sobre o colchão.
Copiando os ontens, vagueia pelas ruas contemplando lobos metropolitanos e metragens das angústias urbanas.
De repente para, apreciando obras de artes na vitrine. Num canto da harmonia, uma tela traga sua atenção: rio, montanhas, primavera e uma casa de porta e janela.
Ela recua passos e passos e passos que o mundo maltratou e avança, mergulhando na casa.


Silas Falcão

quinta-feira, 2 de junho de 2011


                                            
                                               
                                                     No semáforo
                                                    Para Silas Falcão

                                                    Sua face contrita
                                                    a mão estendida
                                                    e o roto blusão
                                                    põem em dúvida:
                                                    toda frase bendita
                                                    a terra prometida
                                                    a civilização

                                                   Por Carlos Vazconcelos

quarta-feira, 1 de junho de 2011

                                            A  rua da alegria
                                                                            Uma rua somos nós
Nela moram o Respeito e a Harmonia.
Na Rua da Alegria não reside o assalto. Os inquilinos, reconquistando o inclusivo hábito usurpado pela Violência, põem cadeiras nas calçadas onde toma assento o rendilhado da vida desorganizada da Rua da Amargura.
Em cada casa vive o Abraço, o Sorriso, o Compartilhamento, o Altruísmo.
Em toda sua extensão organizada, a Fome orgânica ou espiritual não tem império, indeferida que é pela vigilante Fraternidade.
Acontecem semanalmente na Rua da Alegria encontros literários que a Poesia, o Conto, a Crônica promovem na casa da Literatura.
Diariamente a Rua recebe novos habitantes expulsos da Rua da Amargura. Um deles é a Cortesia, da casa nº inclusão, da gentilíssima Educação. Outra recém chegada é a educadora Consciência, que prestigia cada vizinho pelo ser.  O que não ocorre na Rua da Amargura, onde a megera Aparência julga os débeis inquilinos pelo ter.
Mas como a bondade é sempre um desafio à maldade, a Rua da Alegria é caminho das tentativas. Ultimamente, quem insultou hospedagem foi a eternamente indesejada Mediocridade, expulsa pela Dignidade. Hoje ela habita o casebre do Orgulho, em outra rua.
Em vão, a milenar Doença, na sua incansável persistência, vive tentando locar suas dores na Rua da Alegria. A Saúde, revigorada pela Felicidade e pelo Otimismo, sempre a expulsa para seu local de origem: a Rua da Amargura.
Festejam as más línguas dessa Rua mesquinha que a Rua da Alegria será invadida pela Avenida do desprezo, que está sendo construída pela empreiteira Arrogância. A oposição será pacifica, mas determinada. A Dignidade, fortalecida pela presença da Paz, da União e pelos virtuosos moradores da Rua da Alegria, resistirá ate o último segundo. Sendo vitoriosa a Avenida, a Rua da Alegria sempre se reinaugurará em outro local, porque primeiramente ela existe dentro de nós.

Do livro Por quem somos? 
Silas Falcão



"Assim como o homem, a rua tem alma. Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos transeuntes, e o destino nos conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-as nascer sob uma estrela ou sob um signo mal. Oh! Sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem histórias, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem um pingo de sangue." (p. 45)
A alma encantadora das ruas (1908)
João do Rio